Sintetizadores de Pixels: IA no VJing Contemporâneo
Esta pesquisa foi apresentada no ERVA 90 — Artificial Intelligence (AI), Narrativa y procesos creativos aplicados al audiovisual, 3º Encuentro, promovido pelo Telenoika — comunidade audiovisual de criação aberta sediada em Barcelona —, no espaço La Occulta BCN, em 29 de março de 2026. A Misteria dividiu a noite com outros projetos internacionais de arte e IA, entre performances de VJ e DJ ao vivo.
Esta apresentação explora a integração da Inteligência Artificial no fluxo de trabalho para a criação de imagens e vídeos no contexto do VJing. Demonstrarei como essa tecnologia foi aplicada como uma ferramenta técnica dentro de um processo de criação artística autoral. A partir de uma metodologia que une da pesquisa ao uso da IA como sintetizadora de movimento e geradora de animações. Apresentarei o fluxo criativo que resultou nos sets da minha participação no VJ Torna Brasil 2025. O foco aqui não reside na automação, mas na construção de uma identidade estética alinhados com a geração de vídeos por IA e a performance do VJing.
O fundamento deste processo criativo reside na metodologia de pré-produção estruturada, que transforma uma ideia abstrata em uma execução técnica viável. Tudo começa com o Mood Board, onde são reunidas as referências visuais e paletas de cores que definem a “alma” estética do projeto. Em seguida, o Storyboard organiza essa estética em uma linha do tempo, criando uma narrativa e um roteiro para a evolução das imagens. Em suma, é esse fluxo que garante que a criatividade não se perca no improviso, permitindo que o artista domine a tecnologia em vez de ser dominado por ela.
Após o rigor da pré-produção e a imersão na curadoria de referências, o fluxo criativo entre o olhar do artista e a síntese da Inteligência Artificial resultou na construção de quatro sets narrativos distintos. Cada um deles explora uma faceta da nossa realidade, unindo técnica e poética para traduzir o sentimento de pulsação e resistência que move este trabalho.
A partir de agora, vamos discorrer sobre o processo de criação, os desafios e a fundamentação estética de cada um desses conjuntos:
- Retratos do Brasil: Documentário Social e Memória Visual
- Brasil Gambiarra: A Estética da Colagem e a Crítica Social
- Derrete Man - A Anatomia do Derretimento
- O Narcisismo Iluminado
Retratos do Brasil: Documentário Social e Memória Visual
Pesquisa e curadoria de imagens que retratassem o imaginário da cultura popular nordestina e indígena. A ideia para este set é focar no peso das figuras humanas e na sua diversidade no intuito de transmitir força imagética e brasilidade.
O Conceito:
- Curadoria e Pesquisa: Diálogo com a tradição do documentário social brasileiro para retratar figuras da cultura popular (vaqueiros, pescadores, lavadeiras, indígenas e brincantes).
- Ressignificação do Olhar: Transformação de registros fotográficos em “samples vivos” através de uma estética realista e humana com o uso de inteligência artificial.
Recorte do background, transformando imagem em PNG. Gerar movimento com uso da ferramenta Veo 3 (Google IA).
Arquivo em mp4.

Intervenção de efeitos no arquivo gerado utilizando o software VDMX. Exportação de arquivo em formato HAP para execução em tempo real.
Arquivo final (loop) exportado em HAP.

Por que IA? Justificativa e Eficiência no Fluxo Criativo
Otimização e Agilidade Técnica
- Solução para Rotoscopia: A IA permitiu isolar e animar figuras humanas de fotografias documentais de forma ágil. O uso de vídeos originais exigiria um processo de rotoscopia extremamente complexo e moroso, que foi superado pela síntese de movimento.
- Foco no Personagem: Controle total para remover backgrounds e concentrar a narrativa no gesto e na presença da figura humana.
O “Glitch” como Camuflagem Estética
- Sinergia com o VJing: A natureza da manipulação ao vivo — com cortes rápidos, efeitos de glitch e rítmica intensa — absorve e ressignifica a artificialidade da IA. As imperfeições do movimento tornam-se texturas estéticas que reforçam o conceito, em vez de distrair o público.
Simplicidade e Precisão Narrativa
- O Minimalismo do Gesto: A opção por movimentos sutis evitou “alucinações” da IA e erros de comunicação. O objetivo era extrair apenas o essencial: o gesto e o “fôlego” do personagem.
Consistência Visual em Larga Escala: A IA permitiu criar uma unidade estética entre dezenas de loops diferentes. Foi possível aplicar o mesmo “comportamento de movimento” a personagens de origens distintas, criando uma biblioteca coesa para o torneio.
Prototipagem de Baixo Custo e Alto Impacto: Possibilidade de testar dezenas de variações de movimento para uma mesma imagem em poucos minutos, algo impossível na animação tradicional.
Hibridismo entre o Estático e o Dinâmico: A IA criou uma “terceira via” visual: imagens que possuem a dignidade e o detalhamento da fotografia documental, mas com a energia necessária para o fluxo de vídeo.
Brasil Gambiarra: A Estética da Colagem e a Crítica Social
O set Brasil Gambiarra utiliza a Inteligência Artificial para explorar a colagem como metáfora de um país construído sobre remendos e contradições. Diferente do set anterior, aqui a IA atua diretamente na geração das cenas, guiada por uma curadoria obsessiva de referências visuais dos anos 70 e uma seleção de termos de forte carga social, como ‘gambiarra’ e ‘corrupção’. O fundamento deste trabalho não é a geração aleatória, mas o controle da ‘temperatura’ estética: um equilíbrio entre o colorido desgastado e o preto e branco dramático. O sucesso deste fluxo dependeu da capacidade do artista de filtrar inúmeros ‘fracassos’ gerados pela máquina até encontrar a imagem que traduzisse a frase guia do projeto: a ideia de que o Brasil se sustenta na força de quem possui pouco. Na performance ao vivo, essas colagens sintéticas tornam-se uma crítica visual pulsante, onde a artificialidade da IA reforça a sensação de uma realidade fragmentada e em constante reconstrução.
Referências de colagens
1. Conceito: “O País só fica de pé porque quem tem pouco sustenta tudo”
- Temática: O Brasil em desenvolvimento, a precariedade e a engenhosidade (gambiarra).
- Direção Estética: Colagem anacrônica com influência dos anos 70, cores desgastadas, granulação e alto contraste em preto e branco.
Colagens Geradas com IA - Veo 3
2. A IA como Colagista Digital
- Curadoria de Referências: Seleção rigorosa de colagens analógicas para “ensinar” à IA a temperatura de cor e a composição desejada.
- Engenharia de Prompt: Uso de palavras-chave viscerais (Gambiarra, Corrupção, Cidade, Pobreza) e frases de impacto para direcionar a carga semântica dos vídeos.
Arquivo mp4.

Intervenção de efeitos no arquivo gerado utilizando o software VDMX. Exportação de arquivo em formato HAP para execução em tempo real.
A Narrativa Sensorial: O Brasil Pulsante
A estratégia central desta performance foi a criação de um ambiente sensorial que traduzisse a dualidade da identidade brasileira através do contraste entre duas temáticas complementares. Ao cruzar os Retratos do Brasil — que exaltam figuras icônicas, pulsantes e ricas de nossa cultura — com o Brasil Gambiarra — que expõe um país refém da desigualdade e da negligência política —, a narrativa propõe uma reflexão semiótica sobre quem realmente sustenta a nação. O objetivo foi utilizar o fluxo imagético para apresentar, de maneira simbólica e poética, a realidade de que as figuras que constroem as bases do país são as mesmas que suportam o peso das injustiças sociais. Essa fusão estética, potencializada pela manipulação em tempo real, transforma o set em um manifesto visual, onde a beleza da tradição e a crueza da precariedade se fundem para gerar uma experiência de impacto emocional e consciência crítica.
A IA como Ferramenta de Tradução e Síntese
Neste fluxo de trabalho, a Inteligência Artificial foi integrada como um componente técnico estratégico, atuando como uma ponte entre a pesquisa documental e a performance em tempo real. No set Retratos do Brasil, ela funcionou como uma sintetizadora de movimento, dando vida aos personagens sem ferir a força da fotografia original. Já no set Brasil Gambiarra, a IA assumiu o papel de uma colagista digital, processando conceitos complexos e frases críticas para gerar uma estética de fragmentação e precariedade. O diferencial do uso da IA neste processo não foi a automação, mas a agilidade criativa: a tecnologia permitiu que o artista focasse na curadoria e na construção de uma narrativa semiótica, delegando à máquina a fabricação dos ativos visuais sob um rigoroso controle de ‘temperatura’ estética. Assim, a IA não substituiu o olhar, mas amplificou a capacidade do VJ de traduzir a complexidade brasileira em uma experiência audiovisual potente e coesa.
Derrete Man - A Anatomia do Derretimento
A estética minimalista em preto e branco, centrada exclusivamente na linha de contorno da forma humana, foi adotada como uma estratégia conceitual para traduzir visualmente a escassez da essência humana em um mundo saturado de excessos e valores distorcidos. Ao isolar a figura humana despida de detalhes e texturas contra o vazio, o traço simples e solitário torna-se o retrato da vulnerabilidade do Homo Sapiens, cujo derretimento ocorre não por um ataque externo, mas pela imersão passiva e constante em um fluxo incessante de distrações digitais e pressões por produtividade. Essa redução gráfica ao essencial simboliza a perda da “alma” e da autonomia do indivíduo que, hipnotizado pelo supérfluo e com as mãos ocupadas segurando o celular, vê sua própria substância se liquefazer em um acontecimento diário, banal e desprovido de sentido autêntico.
Animações geradas por IA - Veo 3
A inteligência artificial foi integrada ao processo criativo não como uma ferramenta de automação, mas como um motor de síntese visual e fluidez orgânica, capaz de traduzir a natureza mutável do “derretimento” de forma que o desenho tradicional teria dificuldade em replicar. O uso de modelos generativos de vídeo e animação permitiu explorar a imprevisibilidade da matéria líquida, transformando a linha de contorno minimalista em uma substância viva que reage à gravidade e ao movimento. O processo foi estritamente iterativo: a IA forneceu a “massa” visual bruta a partir de prompts conceituais, enquanto a direção humana refinou o tempo, a cadência e a sobriedade estética, garantindo que a tecnologia servisse à narrativa da exaustão e não ao espetáculo visual. Dessa forma, a própria natureza “instável” da imagem gerada por IA tornou-se uma metáfora da instabilidade do Sapiens contemporâneo.
Prompt 01: O Caminhante Solitário — “Animação minimalista em estilo line-art, fundo preto absoluto, linha de contorno branca fina de um homem caminhando lentamente. À medida que ele avança, seus pés e pernas começam a derreter e escorrer como cera líquida, deixando um rastro preto no vazio. Alto contraste, 2D, traço manual.”
Prompt 02: A Queda Invertida — “Corpo humanoide simplificado caindo de cabeça para baixo em um vácuo negro. Estética de gravura em preto e branco. O corpo se liquefaz em tempo real, com a substância humana subindo em direção ao topo do quadro enquanto o peso cai. Movimento fluido, cinematográfico, simulação de líquido viscoso.”
Prompt 03: A Distração Hipnótica — “Close-up do perfil de uma figura humana segurando um retângulo luminoso (celular). A luz do objeto faz com que o rosto da figura derreta e escorra pelos braços. Apenas linhas de contorno brancas sobre fundo preto. Estilo minimalista, focado na dissolução da forma pela luz.”
O Narcisismo Iluminado
O cerne conceitual deste set é a releitura do Mito de Narciso para a era do smartphone. No Renascimento, os retratos eram encomendados para eternizar a virtude, o status ou a piedade. Aqui, a figura utiliza o aparato técnico (o celular com flash) como um espelho digital, criando uma “pintura” instantânea de si mesma — o selfie.
O tema principal é a ironia da autorrepresentação na era da influência. A imagem desconstrói a noção de beleza e autenticidade.
Em suma, este trabalho utiliza a solenidade da arte renascentista para emoldurar o efêmero e o superficial, questionando os valores da nossa sociedade centrada na imagem e na validação constante.
Animações geradas por IA - Veo 3
O Conceito Central: A Dessacralização do Sagrado e a Sacralização do Trivial
O conceito que une todas as imagens é a justaposição irônica. O objetivo é pegar figuras, poses e estilos de iluminação que historicamente representavam o divino, o mártir, a santidade e a virtude, e os preenche com os “sacramentos” da modernidade: smartphones, emojis, hashtags e produtos de consumo.
Isso cria um contraste visual. Ao ver Cristo ou um santo segurando um celular, somos forçados a questionar onde depositamos nossa “fé” e nossa atenção hoje em dia. As imagens sugerem que o algoritmo se tornou nosso novo Deus, e a curtida, nossa nova bênção.
A IA como Sintetizadora de Narrativas: Do Conceito à Imagem Pulsante
Neste processo, a Inteligência Artificial não é uma geradora aleatória de conteúdo, mas uma ferramenta de síntese integrada objetivamente para dar corpo às ideias que nasceram no papel e na caneta. Ela atua como uma ponte técnica que permite transformar uma curadoria obsessiva de referências em uma experiência visual dinâmica e coesa.
No set Retratos do Brasil, a IA foi utilizada como uma ferramenta de síntese de movimento. O objetivo aqui foi puramente técnico e narrativo: em vez de enfrentar um processo de rotoscopia manual extremamente lento, a tecnologia permitiu isolar figuras de fotografias documentais e injetar nelas um “fôlego” artificial. O uso do modelo Veo permitiu que imagens estáticas ganhassem a energia necessária para o fluxo de vídeo, criando uma “terceira via” que mantém a dignidade da fotografia original enquanto pulsa na rítmica do VJing.
Já no set Brasil Gambiarra, a IA assumiu o papel de uma colagista digital. Aqui, a colaboração foi mais semântica: utilizei a engenharia de prompt para processar termos viscerais e conceitos de forte carga social, como “gambiarra” e “corrupção”. A IA transformou essas palavras em imagens que carregam a estética do remendo e da fragmentação, servindo como uma metáfora visual para a realidade brasileira.
Para o Derrete Man, a IA foi o motor que trouxe a fluidez orgânica necessária para o conceito de derretimento. Através de modelos generativos de vídeo, foi possível explorar a imprevisibilidade da matéria líquida, algo que o desenho tradicional teria dificuldade em replicar com a mesma naturalidade. Os prompts foram desenhados para que a máquina fornecesse a “massa visual” bruta, enquanto o controle humano refinava o tempo e a cadência para evitar distrações e focar no essencial: o gesto de exaustão do personagem.
No encerramento com O Narcisismo Iluminado, a IA colaborou na construção de uma narrativa de justaposição irônica. Ela foi usada para preencher poses e estéticas consagradas da arte renascentista com os “sacramentos” da modernidade, como smartphones e hashtags, criando um contraste visual imediato sobre onde depositamos nossa atenção hoje.
Em suma, a IA colaborou para elevar o nível da performance ao permitir uma prototipagem de alto impacto e uma unidade estética que seria impossível de alcançar em larga escala com métodos tradicionais. Ela absorve e ressignifica a própria artificialidade, transformando imperfeições em texturas estéticas que reforçam a narrativa de um Brasil em constante reconstrução.
Valentino C. Kmentt — Misteria, Estúdio de Pesquisa e Criação em Arte e Tecnologias Audiovisuais. Apresentação original de 28/03/2026, no ERVA 90 (Telenoika, Barcelona).