Pesquisa e Experimentação, 28 de mar. de 2026

Sintetizadores de Pixels: IA no VJing Contemporâneo

ERVA 90 — Telenoika, Barcelona

Esta pesquisa foi apresentada no ERVA 90 — Artificial Intelligence (AI), Narrativa y procesos creativos aplicados al audiovisual, 3º Encuentro, promovido pelo Telenoika — comunidade audiovisual de criação aberta sediada em Barcelona —, no espaço La Occulta BCN, em 29 de março de 2026. A Misteria dividiu a noite com outros projetos internacionais de arte e IA, entre performances de VJ e DJ ao vivo.

Esta apresentação explora a integração da Inteligência Artificial no fluxo de trabalho para a criação de imagens e vídeos no contexto do VJing. Demonstrarei como essa tecnologia foi aplicada como uma ferramenta técnica dentro de um processo de criação artística autoral. A partir de uma metodologia que une da pesquisa ao uso da IA como sintetizadora de movimento e geradora de animações. Apresentarei o fluxo criativo que resultou nos sets da minha participação no VJ Torna Brasil 2025. O foco aqui não reside na automação, mas na construção de uma identidade estética alinhados com a geração de vídeos por IA e a performance do VJing.

O fundamento deste processo criativo reside na metodologia de pré-produção estruturada, que transforma uma ideia abstrata em uma execução técnica viável. Tudo começa com o Mood Board, onde são reunidas as referências visuais e paletas de cores que definem a “alma” estética do projeto. Em seguida, o Storyboard organiza essa estética em uma linha do tempo, criando uma narrativa e um roteiro para a evolução das imagens. Em suma, é esse fluxo que garante que a criatividade não se perca no improviso, permitindo que o artista domine a tecnologia em vez de ser dominado por ela.

Após o rigor da pré-produção e a imersão na curadoria de referências, o fluxo criativo entre o olhar do artista e a síntese da Inteligência Artificial resultou na construção de quatro sets narrativos distintos. Cada um deles explora uma faceta da nossa realidade, unindo técnica e poética para traduzir o sentimento de pulsação e resistência que move este trabalho.

A partir de agora, vamos discorrer sobre o processo de criação, os desafios e a fundamentação estética de cada um desses conjuntos:

  • Retratos do Brasil: Documentário Social e Memória Visual
  • Brasil Gambiarra: A Estética da Colagem e a Crítica Social
  • Derrete Man - A Anatomia do Derretimento
  • O Narcisismo Iluminado

Retratos do Brasil: Documentário Social e Memória Visual

Pesquisa e curadoria de imagens que retratassem o imaginário da cultura popular nordestina e indígena. A ideia para este set é focar no peso das figuras humanas e na sua diversidade no intuito de transmitir força imagética e brasilidade.

Referência — Retratos do Brasil Referência — Retratos do Brasil Referência — Retratos do Brasil Referência — Retratos do Brasil Referência — Retratos do Brasil Referência — Retratos do Brasil Referência — Retratos do Brasil Referência — Retratos do Brasil Referência — Retratos do Brasil

O Conceito:

  • Curadoria e Pesquisa: Diálogo com a tradição do documentário social brasileiro para retratar figuras da cultura popular (vaqueiros, pescadores, lavadeiras, indígenas e brincantes).
  • Ressignificação do Olhar: Transformação de registros fotográficos em “samples vivos” através de uma estética realista e humana com o uso de inteligência artificial.

Recorte do background, transformando imagem em PNG. Gerar movimento com uso da ferramenta Veo 3 (Google IA).

Recorte do background em PNG Movimento gerado com Veo 3

Arquivo em mp4.

Frame do arquivo mp4 gerado

Intervenção de efeitos no arquivo gerado utilizando o software VDMX. Exportação de arquivo em formato HAP para execução em tempo real.

Intervenção de efeitos no VDMX Intervenção de efeitos no VDMX

Arquivo final (loop) exportado em HAP.

Arquivo final em loop, exportado em HAP

Por que IA? Justificativa e Eficiência no Fluxo Criativo

Otimização e Agilidade Técnica

  • Solução para Rotoscopia: A IA permitiu isolar e animar figuras humanas de fotografias documentais de forma ágil. O uso de vídeos originais exigiria um processo de rotoscopia extremamente complexo e moroso, que foi superado pela síntese de movimento.
  • Foco no Personagem: Controle total para remover backgrounds e concentrar a narrativa no gesto e na presença da figura humana.

O “Glitch” como Camuflagem Estética

  • Sinergia com o VJing: A natureza da manipulação ao vivo — com cortes rápidos, efeitos de glitch e rítmica intensa — absorve e ressignifica a artificialidade da IA. As imperfeições do movimento tornam-se texturas estéticas que reforçam o conceito, em vez de distrair o público.

Simplicidade e Precisão Narrativa

  • O Minimalismo do Gesto: A opção por movimentos sutis evitou “alucinações” da IA e erros de comunicação. O objetivo era extrair apenas o essencial: o gesto e o “fôlego” do personagem.

Consistência Visual em Larga Escala: A IA permitiu criar uma unidade estética entre dezenas de loops diferentes. Foi possível aplicar o mesmo “comportamento de movimento” a personagens de origens distintas, criando uma biblioteca coesa para o torneio.

Prototipagem de Baixo Custo e Alto Impacto: Possibilidade de testar dezenas de variações de movimento para uma mesma imagem em poucos minutos, algo impossível na animação tradicional.

Hibridismo entre o Estático e o Dinâmico: A IA criou uma “terceira via” visual: imagens que possuem a dignidade e o detalhamento da fotografia documental, mas com a energia necessária para o fluxo de vídeo.

Brasil Gambiarra: A Estética da Colagem e a Crítica Social

Sobrevivência no fio exposto

O set Brasil Gambiarra utiliza a Inteligência Artificial para explorar a colagem como metáfora de um país construído sobre remendos e contradições. Diferente do set anterior, aqui a IA atua diretamente na geração das cenas, guiada por uma curadoria obsessiva de referências visuais dos anos 70 e uma seleção de termos de forte carga social, como ‘gambiarra’ e ‘corrupção’. O fundamento deste trabalho não é a geração aleatória, mas o controle da ‘temperatura’ estética: um equilíbrio entre o colorido desgastado e o preto e branco dramático. O sucesso deste fluxo dependeu da capacidade do artista de filtrar inúmeros ‘fracassos’ gerados pela máquina até encontrar a imagem que traduzisse a frase guia do projeto: a ideia de que o Brasil se sustenta na força de quem possui pouco. Na performance ao vivo, essas colagens sintéticas tornam-se uma crítica visual pulsante, onde a artificialidade da IA reforça a sensação de uma realidade fragmentada e em constante reconstrução.

Referências de colagens

Referência de colagem Referência de colagem Referência de colagem

1. Conceito: “O País só fica de pé porque quem tem pouco sustenta tudo”

  • Temática: O Brasil em desenvolvimento, a precariedade e a engenhosidade (gambiarra).
  • Direção Estética: Colagem anacrônica com influência dos anos 70, cores desgastadas, granulação e alto contraste em preto e branco.

Colagens Geradas com IA - Veo 3

Colagem gerada com IA Colagem gerada com IA Colagem gerada com IA Colagem gerada com IA

2. A IA como Colagista Digital

  • Curadoria de Referências: Seleção rigorosa de colagens analógicas para “ensinar” à IA a temperatura de cor e a composição desejada.
  • Engenharia de Prompt: Uso de palavras-chave viscerais (Gambiarra, Corrupção, Cidade, Pobreza) e frases de impacto para direcionar a carga semântica dos vídeos.

Arquivo mp4.

Frame do arquivo mp4 gerado

Intervenção de efeitos no arquivo gerado utilizando o software VDMX. Exportação de arquivo em formato HAP para execução em tempo real.

Intervenção de efeitos no VDMX Intervenção de efeitos no VDMX

A Narrativa Sensorial: O Brasil Pulsante

A estratégia central desta performance foi a criação de um ambiente sensorial que traduzisse a dualidade da identidade brasileira através do contraste entre duas temáticas complementares. Ao cruzar os Retratos do Brasil — que exaltam figuras icônicas, pulsantes e ricas de nossa cultura — com o Brasil Gambiarra — que expõe um país refém da desigualdade e da negligência política —, a narrativa propõe uma reflexão semiótica sobre quem realmente sustenta a nação. O objetivo foi utilizar o fluxo imagético para apresentar, de maneira simbólica e poética, a realidade de que as figuras que constroem as bases do país são as mesmas que suportam o peso das injustiças sociais. Essa fusão estética, potencializada pela manipulação em tempo real, transforma o set em um manifesto visual, onde a beleza da tradição e a crueza da precariedade se fundem para gerar uma experiência de impacto emocional e consciência crítica.

A IA como Ferramenta de Tradução e Síntese

Neste fluxo de trabalho, a Inteligência Artificial foi integrada como um componente técnico estratégico, atuando como uma ponte entre a pesquisa documental e a performance em tempo real. No set Retratos do Brasil, ela funcionou como uma sintetizadora de movimento, dando vida aos personagens sem ferir a força da fotografia original. Já no set Brasil Gambiarra, a IA assumiu o papel de uma colagista digital, processando conceitos complexos e frases críticas para gerar uma estética de fragmentação e precariedade. O diferencial do uso da IA neste processo não foi a automação, mas a agilidade criativa: a tecnologia permitiu que o artista focasse na curadoria e na construção de uma narrativa semiótica, delegando à máquina a fabricação dos ativos visuais sob um rigoroso controle de ‘temperatura’ estética. Assim, a IA não substituiu o olhar, mas amplificou a capacidade do VJ de traduzir a complexidade brasileira em uma experiência audiovisual potente e coesa.

Derrete Man - A Anatomia do Derretimento

Derrete Man Derrete Man

A estética minimalista em preto e branco, centrada exclusivamente na linha de contorno da forma humana, foi adotada como uma estratégia conceitual para traduzir visualmente a escassez da essência humana em um mundo saturado de excessos e valores distorcidos. Ao isolar a figura humana despida de detalhes e texturas contra o vazio, o traço simples e solitário torna-se o retrato da vulnerabilidade do Homo Sapiens, cujo derretimento ocorre não por um ataque externo, mas pela imersão passiva e constante em um fluxo incessante de distrações digitais e pressões por produtividade. Essa redução gráfica ao essencial simboliza a perda da “alma” e da autonomia do indivíduo que, hipnotizado pelo supérfluo e com as mãos ocupadas segurando o celular, vê sua própria substância se liquefazer em um acontecimento diário, banal e desprovido de sentido autêntico.

Animações geradas por IA - Veo 3

Animação Derrete Man Animação Derrete Man Animação Derrete Man Animação Derrete Man

A inteligência artificial foi integrada ao processo criativo não como uma ferramenta de automação, mas como um motor de síntese visual e fluidez orgânica, capaz de traduzir a natureza mutável do “derretimento” de forma que o desenho tradicional teria dificuldade em replicar. O uso de modelos generativos de vídeo e animação permitiu explorar a imprevisibilidade da matéria líquida, transformando a linha de contorno minimalista em uma substância viva que reage à gravidade e ao movimento. O processo foi estritamente iterativo: a IA forneceu a “massa” visual bruta a partir de prompts conceituais, enquanto a direção humana refinou o tempo, a cadência e a sobriedade estética, garantindo que a tecnologia servisse à narrativa da exaustão e não ao espetáculo visual. Dessa forma, a própria natureza “instável” da imagem gerada por IA tornou-se uma metáfora da instabilidade do Sapiens contemporâneo.

Prompt 01: O Caminhante Solitário — “Animação minimalista em estilo line-art, fundo preto absoluto, linha de contorno branca fina de um homem caminhando lentamente. À medida que ele avança, seus pés e pernas começam a derreter e escorrer como cera líquida, deixando um rastro preto no vazio. Alto contraste, 2D, traço manual.”

Prompt 02: A Queda Invertida — “Corpo humanoide simplificado caindo de cabeça para baixo em um vácuo negro. Estética de gravura em preto e branco. O corpo se liquefaz em tempo real, com a substância humana subindo em direção ao topo do quadro enquanto o peso cai. Movimento fluido, cinematográfico, simulação de líquido viscoso.”

Prompt 03: A Distração Hipnótica — “Close-up do perfil de uma figura humana segurando um retângulo luminoso (celular). A luz do objeto faz com que o rosto da figura derreta e escorra pelos braços. Apenas linhas de contorno brancas sobre fundo preto. Estilo minimalista, focado na dissolução da forma pela luz.”

O Narcisismo Iluminado

O Narcisismo Iluminado

O cerne conceitual deste set é a releitura do Mito de Narciso para a era do smartphone. No Renascimento, os retratos eram encomendados para eternizar a virtude, o status ou a piedade. Aqui, a figura utiliza o aparato técnico (o celular com flash) como um espelho digital, criando uma “pintura” instantânea de si mesma — o selfie.

O tema principal é a ironia da autorrepresentação na era da influência. A imagem desconstrói a noção de beleza e autenticidade.

Em suma, este trabalho utiliza a solenidade da arte renascentista para emoldurar o efêmero e o superficial, questionando os valores da nossa sociedade centrada na imagem e na validação constante.

Animações geradas por IA - Veo 3

Animação O Narcisismo Iluminado Animação O Narcisismo Iluminado Animação O Narcisismo Iluminado Animação O Narcisismo Iluminado

O Conceito Central: A Dessacralização do Sagrado e a Sacralização do Trivial

O conceito que une todas as imagens é a justaposição irônica. O objetivo é pegar figuras, poses e estilos de iluminação que historicamente representavam o divino, o mártir, a santidade e a virtude, e os preenche com os “sacramentos” da modernidade: smartphones, emojis, hashtags e produtos de consumo.

Isso cria um contraste visual. Ao ver Cristo ou um santo segurando um celular, somos forçados a questionar onde depositamos nossa “fé” e nossa atenção hoje em dia. As imagens sugerem que o algoritmo se tornou nosso novo Deus, e a curtida, nossa nova bênção.

A IA como Sintetizadora de Narrativas: Do Conceito à Imagem Pulsante

Neste processo, a Inteligência Artificial não é uma geradora aleatória de conteúdo, mas uma ferramenta de síntese integrada objetivamente para dar corpo às ideias que nasceram no papel e na caneta. Ela atua como uma ponte técnica que permite transformar uma curadoria obsessiva de referências em uma experiência visual dinâmica e coesa.

No set Retratos do Brasil, a IA foi utilizada como uma ferramenta de síntese de movimento. O objetivo aqui foi puramente técnico e narrativo: em vez de enfrentar um processo de rotoscopia manual extremamente lento, a tecnologia permitiu isolar figuras de fotografias documentais e injetar nelas um “fôlego” artificial. O uso do modelo Veo permitiu que imagens estáticas ganhassem a energia necessária para o fluxo de vídeo, criando uma “terceira via” que mantém a dignidade da fotografia original enquanto pulsa na rítmica do VJing.

Já no set Brasil Gambiarra, a IA assumiu o papel de uma colagista digital. Aqui, a colaboração foi mais semântica: utilizei a engenharia de prompt para processar termos viscerais e conceitos de forte carga social, como “gambiarra” e “corrupção”. A IA transformou essas palavras em imagens que carregam a estética do remendo e da fragmentação, servindo como uma metáfora visual para a realidade brasileira.

Para o Derrete Man, a IA foi o motor que trouxe a fluidez orgânica necessária para o conceito de derretimento. Através de modelos generativos de vídeo, foi possível explorar a imprevisibilidade da matéria líquida, algo que o desenho tradicional teria dificuldade em replicar com a mesma naturalidade. Os prompts foram desenhados para que a máquina fornecesse a “massa visual” bruta, enquanto o controle humano refinava o tempo e a cadência para evitar distrações e focar no essencial: o gesto de exaustão do personagem.

No encerramento com O Narcisismo Iluminado, a IA colaborou na construção de uma narrativa de justaposição irônica. Ela foi usada para preencher poses e estéticas consagradas da arte renascentista com os “sacramentos” da modernidade, como smartphones e hashtags, criando um contraste visual imediato sobre onde depositamos nossa atenção hoje.

Em suma, a IA colaborou para elevar o nível da performance ao permitir uma prototipagem de alto impacto e uma unidade estética que seria impossível de alcançar em larga escala com métodos tradicionais. Ela absorve e ressignifica a própria artificialidade, transformando imperfeições em texturas estéticas que reforçam a narrativa de um Brasil em constante reconstrução.


Valentino C. Kmentt — Misteria, Estúdio de Pesquisa e Criação em Arte e Tecnologias Audiovisuais. Apresentação original de 28/03/2026, no ERVA 90 (Telenoika, Barcelona).